| Povo
Guarani
Relações de contato
Os
Guarani possuem uma história antiga (desde o século
XVI) e conturbada de contato, configurada pelo confisco
de seu território. No Brasil, além de carregarem
o estigma de “índios aculturados" em virtude
do uso de roupas e outros bens e alimentos industrializados,
são considerados como índios errantes ou nômades,
estrangeiros (do Paraguai ou Argentina) etc. Esse fato,
aliado à aversão desses índios em brigar
por terra, era distorcido de seu significado original e
utilizado para reiterar a tese, difundida entre os brancos,
de que os Guarani não precisavam de terra, pois nem
"lutavam" por ela. Dessa forma, favorecendo os
interesses fundiários e econômicos especulativos,
pretendeu-se descaracterizar a ocupação territorial
Guarani, negando-lhes, sistematicamente, o direito a terra
(Ladeira, 1992).
Os
Mbya referem-se aos brancos como jurua. Não se sabe
ao certo desde quando empregam esse termo, porém,
hoje tem uso corrente e parece destituído de seu
sentido original. Jurua quer dizer, literalmente, “boca
com cabelo’’, uma referência à
barba e ao bigode dos europeus conquistadores. Uma das expressões
empregadas para designar os brancos é etavakuére,
que quer dizer ”aqueles que são maioria, que
são muitos no mundo”. Essa e outras expressões,
embora não sejam utilizadas na linguagem corrente,
são freqüentes nos discursos proféticos
ou, como dizem, na “linguagem dos antigos”.
O
Serviço de Proteção aos Índios
(SPI), criada em 1910, extinta pelo poder militar, deu origem,
em 1967, a FUNAI – Fundação Nacional
do Índio, que até o momento exerce a política
indigenista do Estado. Atualmente, nas regiões sul
e sudeste várias administrações regionais
da FUNAI abrangem administrativamente as terras dos Guarani
e de outras etnias. Além da tolerância e diplomacia,
somam-se características do contato sistemático,
desde a conquista, que produziu nos Guarani, formas muito
específicas para preservar suas tradições
e estabelecer relações com a sociedade dominante.
Os
Guarani perderam áreas que jamais poderão
retomar, desviaram sua trajetória em função
das novas rodovias, mas conseguiram manter as aldeias como
pontos estratégicos e vitais que permitem manter
a configuração de seu espaço e presença
junto à Serra do Mar e à Mata Atlântica.
Atualmente, as instituições de educação
e saúde têm sido mais presentes nas aldeias
Guarani Mbya, estabelecendo-se novas formas de relações
com a sociedade nacional.
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| Reuniões
realizadas entre os povos indígenas Guarani. |
À
custa do contato antigo e intenso com os brancos, caracterizado
por perseguições culturais e físicas,
desenvolveram vários mecanismos para guardar e viver
suas tradições culturais e religiosas, garantindo
sua reprodução enquanto povo e etnia. Seus
métodos não excluíram o convívio
inevitável com o branco, com quem sempre procuraram
manter um relacionamento amistoso. A demonstração
de respeito aos costumes e religiões alheias, e o
modelo de trajar-se copiado da população regional
significavam, mais do que a submissão a um processo
contínuo de aculturação, uma estratégia
de autopreservação (Ladeira, 1989).
Devido
às condições atuais de seu território,
os Guarani se inserem num contexto onde pressões
externas e internas provocam tensões e crises que
obrigam-nos a repensar e remodelar continuamente as relações
de contato. Vivem o grande paradoxo de sofrerem pressões
para adotarem padrões da sociedade nacional, no que
se refere à educação, saúde,
trabalho, moradia etc., ao mesmo tempo em que, para terem
seus direitos assegurados, devem manter-se étnica
e culturalmente diferenciados, vivendo “conforme seus
costumes, línguas, crenças e tradições”. |
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