Veja o memorando que foi assinado
entre Brasil e EUA
O Brasil e os Estados Unidos assinaram nesta sexta-feira um memorando
de entendimento entre os dois países para avançar
na cooperação em biocombustíveis. Leia abaixo
a íntegra do documento:
"O governo da República Federativa do Brasil e o
governo dos Estados Unidos da América (doravante designados
como "participantes"), reconhecendo os interesses comuns
compartilhados pelos participantes com relação ao
desenvolvimento de recursos energéticos baratos, limpos
e sustentáveis;
Considerando a importância estratégica dos biocombustíveis
como força transformadora na região para a diversificação
de recursos energéticos, para a promoção
de crescimento econômico, para o avanço da agenda
social e para a melhoria do meio ambiente;
Conscientes dos benefícios de forjar uma parceria Brasil-Estados
Unidos para direcionar os recursos de nossos setores público
e privado na direção do fortalecimento dos biocombustíveis
e tecnologias relacionadas;
Levando em conta os mecanismos e a cooperação existentes
nas áreas de energia, agricultura, meio ambiente, ciência
e tecnologia sobre biocombustíveis;
Tendo presente que este memorando tem por objetivo prover um
quadro geral e expressar a intenção de cooperação
entre os governos;
Observando que os temas relacionados com comércio doméstico
e tarifas devem ser tratados em outros foros multilaterais, regionais
e bilaterais, expressam aqui a intenção de cooperar
no desenvolvimento e na difusão dos biocombustíveis
numa estratégia de três níveis (bilateral,
em terceiros países e global):
1. Bilateral: Os participantes pretendem avançar na pesquisa
e no desenvolvimento de tecnologia para biocombustíveis
de nova geração, potencializando, sempre que possível,
o trabalho em andamento no âmbito do Mecanismo de Consultas
entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio do Brasil e o Departamento de Comércio
dos Estados Unidos (Diálogo Comercial Brasil-Estados Unidos);
do Comitê Consultivo Agrícola (2003); do Mecanismo
de Consultas sobre Cooperação na Área de
Energia (2003); da Agenda Comum Brasil - Estados Unidos sobre
Meio Ambiente (1995); e da Comissão Mista Brasil - Estados
Unidos de Cooperação Científica e Tecnológica
(1984, emendada e ampliada pelo protocolo assinado em 21 de março
de 1994).
2. Terceiros países: Os participantes tencionam trabalhar
conjuntamente para levar os benefícios dos biocombustíveis
a terceiros países selecionados por meio de estudos de
viabilidade e assistência técnica que visem a estimular
o setor privado a investir em biocombustíveis. Os países
tencionam começar a trabalhar na América Central
e no Caribe encorajando a produção local e o consumo
de biocombustíveis, com vistas a trabalhar conjuntamente
em regiões-chave do globo.
3. Global: Os participantes desejam expandir o mercado de biocombustíveis
por meio da cooperação para o estabelecimento de
padrões uniformes e normas. Para atingir esse objetivo,
os participantes tencionam cooperar no âmbito do FIB (Fórum
Internacional de Biocombustíveis), levando em conta o trabalho
realizado pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização
e Qualidade do Brasil) e o Nist (Instituto Norte-Americano de
Padrões e Tecnologia, na sigla em inglês), bem como
coordenando posições em fóruns internacionais
complementares.
Os participantes tencionam estabelecer um grupo de trabalho para
supervisionar as atividades realizadas sob os auspícios
deste memorando para que seja assegurada coordenação
adequada entre os três níveis de cooperação.
O governo dos Estados Unidos da América indica o subsecretário
de Assuntos Econômicos, Energia e Temas Agrícolas
do Departamento de Estado como o ponto focal norte-americano para
a implementação deste memorando.
O governo da República Federativa do Brasil designa o
subsecretário-geral político 1 do Ministério
das Relações Exteriores como o ponto focal brasileiro
para a implementação deste memorando.
Cada representante ou as pessoas por ele designadas são
responsáveis em prover informações sobre
ações tomadas pelos governos que os designaram.
Este memorando entra em vigor na data de sua assinatura.
Feito em São Paulo, nos idiomas português e inglês,
no dia 9 de março de 2007."
Veja o discurso do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva
"Excelentíssimo senhor George Bush, presidente dos
Estados Unidos da América, senhores integrantes das comitivas
norte-americana e brasileira, governador de São Paulo,
José Serra, nosso querido presidente da Petrobras, José
Sérgio Gabrielli, ministros, jornalistas, meus amigos e
minhas amigas, esta segunda visita do presidente Bush ao Brasil
em pouco mais de um ano é mais um passo no aprofundamento
do diálogo entre nossos governos e nossos países.
Um diálogo que começou antes mesmo de eu tomar
posse, quando o presidente Bush me recebeu, em dezembro de 2002,
na Casa Branca. Nos freqüentes encontros e telefonemas que
mantivemos desde então, nossas relações foram
sempre pautadas pela extrema franqueza, respeito mútuo
e espírito construtivo.
Nossas sociedades são multiétnicas, nelas convivem
muitas culturas e idéias, foram fundadas nos princípios
do pluralismo, da tolerância e do respeito à diversidade.
O fato de nossos governos se respeitarem mutuamente explica o
excelente momento que atravessam as relações entre
Brasil e Estados Unidos. Revela, também, o grande potencial
de cooperação que têm nossos países,
se formos capazes de continuar construindo objetivos comuns.
Essa foi a base das conversações que tivemos hoje,
quando repassamos nossa ampla agenda bilateral e avaliamos como
melhor trabalhar em questões regionais e multilaterais.
O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos historicamente
transcendeu aos governos que estiveram à frente dos nossos
países, prova disso é a ampla rede de relações
entre empresários, representantes da sociedade civil e
cidadãos dos dois países.
Os Estados Unidos são o nosso maior parceiro comercial
individual e o maior investidor no Brasil. Durante o meu primeiro
mandato, o comércio entre nossos países aumentou
mais de 50%. Os investimentos norte-americanos no Brasil dobraram
ao longo da última década. Empresas brasileiras
estão cada vez mais ativas na economia norte-americana,
e contribuem, junto com a expressiva comunidade brasileira já
radicada, para a geração de emprego e de renda naquele
país.
Senhoras e senhores,o Brasil se orgulha de ter contribuído
para a decisão de governo dos Estados Unidos de aumentar
a participação dos biocombustíveis na matriz
energética. Recordo o entusiasmo com que o presidente Bush
conheceu de perto, no encontro que mantivemos em Brasília
em 2005, a história de sucesso brasileira em matéria
de biodiesel, de biocombustíveis. Temos no Brasil um programa
extremamente exitoso, considerado modelar, fruto de um investimento
de mais de 30 anos em pesquisas e em desenvolvimento. Um programa
que associa o respeito ao meio ambiente à preservação
e ampliação da segurança alimentar de nossa
sociedade, um programa que tem forte impacto social, por sua capacidade
de gerar empregos, fortalecer a agricultura familiar e fazer a
distribuição de renda. Esse é um campo onde
nossos dois países podem cooperar.
O memorando de entendimento sobre biocombustíveis que
os nossos ministros assinaram hoje é um passo decisivo
nessa direção. Juntando suas forças, Estados
Unidos e Brasil podem impulsionar a democratização
energética e levar os biocombustíveis para todos.
Uma das tarefas mais complexas à frente será assegurar
o acesso aos grandes centros consumidores. O Brasil espera que
o mercado de etanol se beneficie de um comércio desimpedido
e livre de protecionismo, somente assim os combustíveis
do futuro poderão funcionar como indutores do desenvolvimento
sustentável, beneficiando também países pobres
e em desenvolvimento. Fazer do comércio um fator de prosperidade
para todos é um desafio sobre o qual eu conversei detidamente
com o presidente Bush.
Precisamos eliminar os desequilíbrios que ainda constrangem
o comércio mundial e que agravam uma das simetrias que
marca o mundo de hoje. Transmiti ao Presidente o meu sentimento
de que estamos mais próximos do que nunca de uma conclusão
bem-sucedida das negociações de Doha. Todos podem
sair ganhando com um acordo ambicioso e equilibrado, sobretudo
os países mais pobres. Seriam criadas mais oportunidades
de crescimento e desenvolvimento nas regiões mais pobres
do planeta. O comércio internacional, no setor agrícola,
aumentaria, reduzindo a pobreza, gerando emprego e renda em países
e regiões menos favorecidas.
Por isso, reiterei ao presidente Bush minha disposição
em participar, em qualquer lugar do mundo, de um encontro de líderes,
se isso nos permitir superar as últimas dificuldades para
um acordo verdadeiramente histórico.
Meu caro Presidente, sua visita ao Brasil coincide com um momento
excepcional que vive o nosso continente, particularmente a América
do Sul. As ditaduras que infelicitaram a região por duas
décadas são uma dolorosa recordação
do passado. Todos os governos sul-americanos são resultados
de eleições livres, com ampla participação
popular. Todos estão empenhados em projetos de crescimento,
com distribuição de renda, capazes de pôr
fim à terrível desigualdade social que herdamos,
agravada por aventuras macroeconômicas passadas. Todos estamos
finalmente empenhados em um projeto de integração
sul-americana. Os países da região associaram o
seu destino ao Mercosul e à Comunidade Sul-Americana de
Nações. Sabemos que a integração é
o melhor caminho para o fortalecimento da democracia e para a
prosperidade regional. Ela cria riquezas e promove o desenvolvimento,
garante uma presença mais soberana da região no
mundo.
Nossa integração se dá entre nações
independentes, onde a diversidade e a tolerância também
são uma força. Respeitamos as opções
políticas e econômicas de cada país e isso
nos tem permitido avanços notáveis, expandindo o
comércio, realizando obras de infra-estrutura, fortalecendo
nossa segurança energética, o bem-estar de nossa
sociedade e aproximando povos capazes de trilhar seu próprio
caminho. A integração também abre oportunidades
para investimentos extra-regionais na área de infra-estrutura,
que terá um efeito multiplicador sobre nossas economias,
dinamizando todos os intercâmbios.
Senhor presidente,a redemocratização e a reconquista
das liberdades políticas não foram suficientes para
impedir que milhões de brasileiros e latino-americanos
ainda vivam em estado de extrema pobreza. Por isso, todos os governos
da região têm implementado programas para desenvolver
nossos países e combater a exclusão social. Nós,
os Presidentes, devemos pensar na vida dessa gente mais sofrida
que, além de querer democracia para eleger os seus governantes,
quer ter o direito à saúde, à educação,
à moradia, à segurança e quer ter o direito
de conquistar a sua cidadania. Todos nós sabemos: a democracia
política prospera quando se tem desenvolvimento econômico
e social, quando se erradica a pobreza, quando se combate a exclusão
e a desigualdade social.
Por isso, meu caro presidente Bush, esta sua visita ao Brasil,
em tão pouco tempo, abre na consciência do povo norte-americano,
do povo brasileiro e, acredito, que de todo o povo latino-americano,
a perspectiva de que não estamos longe de poder construir
um novo padrão de relacionamento entre as nações,
de discutir de forma livre e soberana como os países ricos
podem ajudar os países mais pobres a se desenvolverem e,
mais importante do que isso, garantir que a democracia seja a
razão pela qual os benefícios da riqueza, a construção
da própria riqueza e os benefícios sociais que o
povo precisa justifiquem plenamente a conquista sofrida da democracia
no nosso continente.
Quero terminar, presidente Bush, dizendo a Vossa Excelência
que o Brasil tem consciência do significado da integração
da América do Sul, o Brasil tem consciência do significado
da integração da América Latina, da mesma
forma que o Brasil tem consciência do significado de uma
aproximação do Brasil com a África, e também
dos Estados Unidos com a África. Penso que Estados Unidos
e Brasil poderiam, juntos, construir alguns projetos que pudessem
significar, para esses países mais pobres, a certeza das
pessoas não verem nos países mais ricos apenas os
países exploradores, mas que os vissem como os países
mais ricos do Planeta. Por isso, a Rodada de Doha é importante,
por isso o acordo da OMC é importante, e eu vejo aqui a
sua Ministra negociadora, vejo aqui o meu Ministro negociador,
e eu penso que deveríamos dar a eles uma única ordem:
façam o acordo o mais rápido possível, porque
se Estados Unidos e Brasil se entenderem, fica mais fácil
nós convencermos aqueles que ainda não estão
participando do esforço do acordo.
Eu quero lhe agradecer e dizer que essa relação
Brasil e Estados Unidos, que é uma relação
consagrada ao longo de tantas décadas, vai continuar se
fortalecendo, na medida em que nós nos respeitemos mutuamente,
na medida em que cada um respeite as decisões políticas
soberanas de cada Estado, e na medida em que tenhamos capacidade
de construir juntos projetos que possam ajudar terceiros países
a saírem da situação de pobreza em que se
encontram.
Muito obrigado, presidente Bush, pela sua visita ao Brasil."
Leia o discurso do presidente norte-americano
George W. Bush
"Bom dia. Obrigado por sua hospitalidade, senhor presidente.
É bom estar de volta a seu belo país. Laura e eu
estávamos antevendo com prazer a viagem a São Paulo.
Esta é uma das grandes cidades. E eu estava ansioso por
nossas conversas. O senhor sabe, o Brasil e os EUA são
as duas maiores democracias de nosso hemisfério; temos
muito em comum e temos muito a fazer juntos para melhorar as vidas
de milhões de pessoas em nossos respectivos países,
e, esperamos, nos países vizinhos também.
Acho realmente interessante que boa parte de nossas conversas
nesta visita vai girar em torno da energia. É um novo tipo
de energia. Acho que 20 anos atrás um presidente americano
ou um presidente brasileiro não teriam pensado "vamos
ver se encontramos terreno comum na produção energética".
E no entanto, como o presidente observou, tivemos uma longa discussão
em Brasília sobre combustíveis alternativos. E agora
estamos numa usina que está de fato produzindo combustíveis
alternativos numa base econômica que possui a capacidade
de mudar nossos respectivos países no mundo. E eu, assim
como o presidente, estou muito otimista em relação
ao potencial do etanol e do biodiesel. E é por isso que
estamos aqui.
Quero agradecer o presidente da Petrobras, Sergio Gabrieli, por
sua hospitalidade. Aprecio muito seu "briefing". E quero
agradecer a todos os trabalhadores aqui presentes por nos receberem.
Quero agradecer ao pessoal da Ford e da General Motors que estão
aqui. É muito simpático de sua parte comparecer
para receber o presidente americano. E aprecio sua disposição
em serem inovadores e em atender às demandas do mercado
com produtos que realmente são importantes, e, no caso
em pauta, veículos flex.
As pessoas andam perguntando por que o presidente dos Estados
Unidos estaria tão interessado na diversificação
de nosso suprimento energético, e eis duas razões.
Uma: se você é dependente de petróleo do exterior,
você tem um problema de segurança nacional. Em outras
palavras, a dependência da energia de outro país
significa que você é dependente das decisões
de outro país. Assim, quando diversificamos do uso de gasolina,
usando o álcool, na realidade estamos diversificando do
petróleo.
Em segundo lugar, a dependência do petróleo cria
um problema econômico não apenas para os Estados
Unidos, mas também para todos os outros países que
importam petróleo. Num mundo globalizado, se a demanda
de petróleo cresce na China ou na Índia, isso leva
o preço da gasolina a subir em nossos respectivos países.
Assim, a diversificação em relação
ao produto petrolífero atende aos interesses econômicos
de nossos respectivos países.
E, finalmente, como observou o presidente, todos nós nos
sentimos na obrigação de sermos bons cuidadores
do meio ambiente. Acontece que o etanol e biodiesel vão
ajudar a melhorar a qualidade do meio ambiente em nossos respectivos
países.
Assim, sou muito a favor da promoção de tecnologias
que vão possibilitar que o etanol e o biodiesel continuem
a ser competitivos, e, com isso, a estar ao alcance dos bolsos
das pessoas de nossos respectivos países e suas vizinhanças.
Uma das coisas que gosto, como o presidente observou, é
que uma boa política do etanol e uma boa política
de combustíveis alternativos na realidade conduzem a mais
empregos, e não menos. Em outras palavras, nesta usina
existem empregos. Mas, como o presidente observou, quando você
está cultivando um produto para afastá-lo da dependência
do petróleo, você se torna dependente das pessoas
que cultivam a terra, e a distribuição da riqueza,
a distribuição de oportunidades para os agricultores,
especialmente os agricultores menores em nossos respectivos países,
vai possibilitar que a economia se fundamente em bases mais firmes.
Assim, senhor presidente, sua visão é absolutamente
correta. Aprecio muito o fato de que boa parte de sua energia
é derivada da cana de açúcar. Isso, francamente,
confere ao Brasil uma vantagem tremenda nos mercados mundiais.
A cana de açúcar é de longe a matéria-prima
mais eficiente para a produção de etanol. O presidente
investiu sabiamente em tecnologias que vão aumentar sua
produção por acre, e isso faz muito sentido. Nos
Estados Unidos temos um problema um pouco diferente: não
temos muita cana de açúcar. Assim, nosso material
de base para a produção do etanol tem sido, até
agora, o milho.
Aprecio muito as inovações que estão sendo
feitas aqui no Brasil. Quero dizer, se vocês são
os líderes no etanol, acredito que continuarão a
criar tecnologias que devem estar disponíveis a outros.
Seu processo H-bio de refino do biodiesel a partir da soja e outros
produtos agrícolas é um exemplo disso. Em outras
palavras, vocês poderão usar o refinamento regular
como fruto dos avanços tecnológicos que têm
aqui. Isso faz muito sentido, e eu o parabenizo, senhor presidente,
e parabenizo a Petrobras por permanecer na vanguarda das transformações
tecnológicas.
Muitas pessoas se perguntam se faz sentido ou não desenvolver
uma infra-estrutura de combustível alternativo se o automóvel
não se mantiver a par dele. Bem, a maioria das pessoas
nos EUA não sabe que existem milhões de veículos
de bicombustível em nossas ruas hoje. As pessoas simplesmente
não sabem disso. Em outras palavras, hoje temos a capacidade
de fabricar automóveis de uma maneira que atende à
demanda por etanol. O bicombustível significa que você
ou pode usar gasolina ou combustíveis alternativos --a
escolha é sua. E nós, nos EUA, estamos --essa tecnologia
está disponível. Então meus concidadãos
não devem temer o desenvolvimento de uma indústria
de fonte de energia alternativa, porque o consumidor tem a capacidade
de comprar um automóvel que vai de encontro a essas novas
produções.
Vejo com muito otimismo a possibilidade de os EUA beneficiar-se
de fontes de energia alternativas --tanto otimismo que fixei uma
meta ambiciosa para nosso país, a meta de reduzir o consumo
de gasolina em 20% ao longo de dez anos. Em outras palavras, temos
uma meta fixada de 35 bilhões de galões de combustíveis
alternativos a serem usados até 2017. Isso é sete
vezes mais que a quantidade de combustíveis alternativos
que estamos consumindo hoje. Neste momento estamos consumindo
cerca de 5 bilhões de galões de etanol. Acredito
que as tecnologias serão tais que os EUA vão estar
consumindo 35 bilhões de galões de combustíveis
alternativos.
E isso é importante para nosso país. É um
compromisso de reduzir nossa dependência do petróleo,
e é um compromisso de cuidarmos melhor do meio ambiente.
Em meu orçamento, senhor presidente, propus ao Congresso
que investíssemos US$ 1,6 bilhão ao longo de dez
anos em pesquisas adicionais para assegurar que tenhamos as matérias-primas
alternativas para a produção do etanol. Só
para que o Sr. saiba, no último ano --desde que sou presidente,
já gastamos cerca de US$ 12 bilhões com novas tecnologias
que nos capacitarão a alcançar a independência
econômica, a sermos melhores cuidadores do meio ambiente.
Há muita coisa que podemos fazer juntos. Aprecio muito
a idéia de o Brasil e os EUA compartilharem oportunidades
de pesquisas e desenvolvimento. Vocês têm ótimos
cientistas, nós temos ótimos cientistas; faz sentido
que colaboremos para o bem da humanidade. E nossa parte da iniciativa
é que vamos trabalhar juntos com eficiência e cooperar
com as pesquisas e o desenvolvimento.
Acho também que a idéia do presidente de ajudar
outros a compreender os benefícios dos combustíveis
alternativos faz muito sentido. Por isso aplaudimos o Banco Interamericano
de Desenvolvimento e seus esforços para levar empréstimos
e capital para países que poderiam beneficiar-se de fontes
de energia alternativas. Estou especialmente ansioso para trabalhar
com o presidente para ajudar a América Central a tornar-se
menos dependente do petróleo, tornar-se auto-suficiente
em termos de energia. É do interesse dos Estados Unidos
que exista uma vizinhança próxima. E uma maneira
de ajudar a fazer a prosperidade se espalhar na América
Central é que esses países se tornem produtores
de energia, e que não continuem dependentes de outros para
suas fontes de energia.
Finalmente, o presidente mencionou o fato de que houve nas Nações
Unidas um Fórum Internacional de Biocombustíveis.
O que ele não disse a vocês foi que o fórum
foi idéia dele. E eu aplaudo o fato, sr. presidente, de
o sr. ter proposto essa idéia. Faz muito sentido que países
como China e Índia compreendam os potenciais das fontes
alternativas de energia. E acredito que o Brasil e os Estados
Unidos têm a capacidade de ajudar a liderar o caminho rumo
a esse dia melhor.
Assim, senhor presidente, este foi um ótimo primeiro encontro
aqui. Aprecio o fato de que o sr. está prestes a me pagar
um almoço. Estou com fome (risos). Estou ansioso por comer
um pouco daquela boa comida brasileira.
Enquanto isso, porém, espero que os cidadãos do
Brasil, assim como os dos EUA, estejam tão otimistas em
relação ao futuro quanto estamos estes dois presidentes.
E uma razão pela qual estamos otimistas é que enxergamos
o potencial brilhante e real de nossos cidadãos serem capazes
de usar fontes de energia alternativas que irão promover
o bem comum.
Então, senhor presidente, obrigado por me receber."
Confira as declarações
dos dois presidentes em visita a Transpetro
"É um prazer poder receber o presidente George Bush
em São Paulo, a nossa maior metrópole brasileira,
uma cidade que simboliza a pujança da nossa economia e
o espírito empreendedor da nossa gente.
Viemos ao terminal da Transpetro, aqui em Guarulhos, para celebrar
uma parceria verdadeiramente estratégica entre Estados
Unidos e Brasil. O Memorando de Entendimento sobre a Cooperação
na Área de Biocombustíveis assinado hoje é,
sem dúvida, a nossa resposta ao grande desafio energético
do século 21.
O mundo está observando, com muita atenção,
o evento de hoje. Estamos lançando uma parceria para o
futuro, um empreendimento amplo e renovado que transcende o plano
bilateral e cria oportunidades em escala mundial. A parceria que
vamos inaugurar é ambiciosa e voltada para todos os aspectos
ligados à incorporação definitiva do etanol
na matriz energética de nossos países.
Foi com grande satisfação que soube da determinação
do presidente Bush de valorizar os biocombustíveis dentro
da matriz energética dos Estados Unidos. Esse acordo torna
realidade uma idéia que nasceu por ocasião do nosso
encontro em Brasília, em 2005, quando o presidente Bush
conheceu a história de sucesso brasileira dos biocombustíveis.
É importante lembrar que quando o presidente Bush foi a
Brasília eu tinha uma obsessão pelos biocombustíveis,
e quase que ele não consegue almoçar de tanto que
eu falei de biocombustível. Eu penso que foi importante,
porque nem sempre o mundo está preparado e apto para mudanças
importantes, se não houver incansáveis debates até
as pessoas se convencerem de que o planeta Terra precisa ser despoluído.
E está nas nossas mãos, que o poluímos, despoluirmos.
No campo do etanol, temos um programa extremamente bem-sucedido,
fruto de mais de 30 anos de muito trabalho e de inovação
tecnológica. Estamos fazendo igual aposta com o biodiesel:
até 2010, o diesel brasileiro já será, em
5%, extraído de plantas nativas e abundantes no País,
como o dendê, o caroço do algodão, o girassol,
a mamona, a soja e tantas outras oleaginosas.
Por isso mesmo, nosso programa de biodiesel tem grande impacto
social. É voltado para o pequeno agricultor, para a agricultura
familiar, ajudará a criar emprego e renda nos lugares mais
pobres deste País, sobretudo nas regiões do semi-árido
nordestino, onde muitos desses cultivos são nativos.
Hoje, a sociedade toda colhe o fruto desse esforço, e
outros países querem compartilhar a experiência brasileira
na produção de biocombustíveis. O Memorando
é importante passo nessa direção, mas não
é apenas uma parceria econômica entre Brasil e Estados
Unidos. A estreita associação e cooperação
entre os dois líderes da produção de etanol
possibilitará a democratização do acesso
à energia.
O uso crescente de biocombustíveis será uma contribuição
inestimável para a geração de renda, inclusão
social e redução da pobreza em muitos países
pobres do mundo. Queremos ver as biomassas gerarem desenvolvimento
sustentável, sobretudo na América do Sul, na América
Central, no Caribe e na África.
O Brasil e os Estados Unidos devem formar alianças com
terceiros países para diversificar globalmente a produção
de biocombustíveis. Para isso é preciso criar as
bases para um mercado mundial de biocombustíveis. Temos
uma responsabilidade e um desafio muito especial.
Mas nossa parceria estratégica também está
sendo reforçada com a criação do Fórum
Internacional de Biocombustíveis, com a participação
dos Estados Unidos, Brasil, Índia, China, África
do Sul e União Européia. Somente assim teremos a
escala de produção necessária para potencializar
os benefícios do etanol e do biodiesel.
Tenho sido, como todo mundo sabe --quase de uma forma doentia--
defensor das fontes renováveis de combustíveis.
Vejo, portanto, com enorme satisfação, uma crescente
consciência na comunidade internacional de que é
preciso superar a dependência dos combustíveis fósseis.
No momento em que somos chamados a agir com urgência para
enfrentar o aquecimento global, tudo que fizermos para reduzir
as emissões de gases poluentes será um ganho.
Os biocombustíveis oferecem uma alternativa mais limpa
e economicamente viável. A tecnologia é nossa grande
aliada nessa empreitada. Os ganhos com o emprego dos biocombustíveis
no Brasil já se refletem no desenvolvimento de novas tecnologias
e na criação de uma matriz energética mais
limpa.
Presidente Bush,
Mais do que triplicamos a produtividade da cana-de-açúcar,
principal fonte do etanol, e demonstramos ser possível
aumentar a produção de biocombustíveis sem
prejuízos para a produção de alimentos, ao
mesmo tempo em que estamos reduzindo o desmatamento na Amazônia.
A maioria dos carros hoje vendidos no Brasil é flex fuel,
uma tecnologia que desenvolvemos aqui e que tornou o etanol um
combustível seguro e confiável. E estou convocando
a indústria brasileira a fazer o mesmo com o biodiesel.
Os nossos construtores de ônibus e de caminhões que
se preparem, porque nós precisamos avançar na questão
do biodiesel.
Eu estou convencido, presidente Bush, de que os Estados Unidos,
com sua grande capacidade tecnológica e empresarial, serão
um sócio, um parceiro extraordinário nesse empreendimento.
Esta sua vinda ao Brasil no dia de hoje, esta visita que fizemos
à Petrobras e a conversa que vamos ter, ainda, na hora
do almoço, podem significar, definitivamente, uma aliança
estratégica que permita o convencimento ao mundo de mudar
a sua matriz energética. Afinal de contas, como eu disse
agora há pouco, nós poluímos tanto o Planeta
durante o século 20, e temos agora que dar a nossa contribuição
para despoluí-lo no século 21. Afinal de contas,
somos responsáveis e queremos que os nossos filhos e que
os nossos netos possam viver num mundo menos poluído que
o mundo em que estamos vivendo hoje.
Além desse bem à Humanidade que faremos, com a
introdução dos biocombustíveis, nós
estaremos permitindo que pela primeira vez a gente possa utilizar
os combustíveis como uma fonte de distribuição
de renda e geração de empregos sem precedentes na
história da Humanidade, sobretudo se nós analisarmos
o que fazer com os países do continente africano, se nós
analisarmos o que fazer com os países mais pobres da América
do Sul, se nós analisarmos o que fazer com os países
do Caribe e da América Central, onde os Estados Unidos
mantêm parceria com todos esses países. Eu penso
que essa parceria entre Estados Unidos e Brasil pode significar,
definitivamente, a partir do dia de hoje, um novo momento da indústria
automobilística no mundo, um novo momento dos combustíveis
no mundo e, eu diria, possivelmente um novo momento para a Humanidade.
Por isso, muito obrigado pela sua visita."
Leia trechos da coletiva concedida
pelos presidentes Bush e Lula
Porta-Voz: Muito obrigado. Conforme foi previamente acertado,
nós teremos duas perguntas de jornalistas brasileiros e
duas perguntas de jornalistas norte-americanos. Então,
eu passo a palavra, para a primeira pergunta, para o Celso Teixeira,
da TV Record.
Jornalista Celso Teixeira - TV Record: Good afternoon, Mr. president
Bush (boa tarde senhor presidente Bush). Boa tarde, presidente
Lula. I'll ask you in Portuguese? (Eu posso perguntar em português?).
Presidente Bush: OK.
Jornalista Celso Teixeira (TV Record): Como a gente pode acreditar
que essas possibilidades... o compromisso que os senhores estão
assumindo de negociar o destravamento da Rodada de Doha seja possível,
já que os senhores têm uma experiência muito
próxima, dos dois governos, de negociação
da Alca (Área de Livre Comércio das Américas),
em que nada deu certo. Qual vai ser a diferença, neste
momento, de uma negociação comercial, em que os
senhores vão falar --tentar falar a mesma língua,
apesar da diferença entre o português e o inglês,
tentar falar o mesmo idioma para o mundo-- que os dois países
têm disposição de negociar? E por que essa
negociação, neste momento, seria diferente? E talvez
o encontro dos senhores em Washington fosse uma oportunidade para
se estabelecer um prazo para essa negociação. Até
o dia 30 ou 31 de março os senhores poderiam ter um compromisso
de alguns acertos. Muito obrigado.
Presidente Lula: Bem, meu caro Celso. Primeiro, fazer acordo
entre nações não é uma coisa tão
simples, porque a complexidade dos problemas econômicos,
políticos e sociais que envolvem uma decisão podem
ter resultados extraordinários e podem ter resultados desastrosos.
Nós já conversamos muito sobre a Rodada de Doha
ao longo desses últimos meses e nós estamos andando
com muita solidez para encontrar a possibilidade, com o chamado
ponto G, de fazer um acordo.
Eu estou convencido da disposição. Eu disse ao
presidente Bush que, se Brasil e Estados Unidos encontrarem entre
si o ponto de equilíbrio, que possam fazer oferta aos outros
países... Porque os Estados Unidos levaram uma vantagem
nessa negociação: tem muita gente que depende das
negociações da parte dos Estados Unidos, mas eles
negociam em nome deles mesmos. Nós, no Brasil, temos que
negociar junto com o G-20 e a União Européia, é
um conjunto de países. Portanto, vocês percebem que
nós, além de convencermos os parceiros mais ricos,
temos que convencer, também, os parceiros mais pobres a
aceitar o acordo. Nós estamos aceitando esse desafio, porque,
neste momento, o sucesso das negociações não
é mais econômico, não se trata mais de quem
vai perder economicamente ou ganhar economicamente. O problema,
agora, é eminentemente político. O problema, agora,
é se nós vamos ter, enquanto lideranças mundiais,
competência para decidir para melhor ou para pior o futuro
de milhões de seres humanos que dependem desse acordo.
Eu estou convencido de que vamos chegar lá.
Segundo, não é possível comparar o que estamos
negociando agora, na Rodada de Doha, com as conversações
sobre a Alca, até porque você cobriu a minha campanha
de 2002 e viu quantos discursos eu fiz contra a Alca em 2002.
Eu e quase todos os governantes que disputaram as eleições