Espécies
exóticas em águas brasileiras: entenda por que
a bioinvasão marinha é um problema para o nosso
litoral
Em
função da sua extensão e variedade de
ambientes associados a ecossistemas costeiros, o Brasil carrega
o título de importante doador e receptor de espécies
marinhas
03/03/2026 –
Por Larissa Marques Pires-Teixeira, Fernanda Araujo Casares
e Joel Christopher Creed - É comum associar a perda
de biodiversidade com atividades humanas, como desmatamento
e poluição, que contribuem para a redução
e o desaparecimento de espécies da fauna e da flora.
Outra consequência da ação humana, a introdução
de espécies invasoras, também desempenha um
papel importante na diminuição da diversidade
de espécies no mundo todo.
A chegada de uma
espécie representa para um ecossistema um novo componente
que é introduzido em um ambiente até então
em equilíbrio e com inter-relações entres
as espécies nativas, que evoluíram paralelamente
ao longo de milhares de anos.
A introdução
de uma nova espécie significa sempre uma ameaça?
Vai depender das características do ambiente que recebe
e da espécie que é introduzida. Caso o desdobramento
dessa introdução seja um evento de bioinvasão,
os custos são altos, para o meio ambiente, para os
cofres públicos e as vezes até para a saúde
humana.
Estima-se que os
custos com o manejo de espécies exóticas invasoras
e as consequências desses eventos a nível global
tenham girado em torno de R$ 2,88 trilhões de dólares,
considerando o período entre 1970 e 2022. No Brasil,
o valor gasto com os prejuízos chega a R$ 104,33 bilhões
de dólares, entre 1984 e 2019.
No mar ainda faltam
dados que estimem os custos com a problemática da bioinvasão
no Brasil, mas é possível ter uma ideia a partir
dos custos de uma única ação para remoção
de uma espécie de coral invasor bem conhecida, o Coral-sol.
O valor gasto em um dia de ação é de
R$ 3.600,00 (aproximadamente US$ 720). Contudo, para um manejo
efetivo, são necessárias atividades contínuas
de remoção.
Bioinvasão
marinha ao longo dos anos
Em função da sua extensão e variedade
de ambientes associados a ecossistemas costeiros, o Brasil
carrega o título de importante doador e receptor de
espécies marinhas. Nossos 8 mil km de litoral são
compostos por ambientes tropicais a temperados distintos e
com diversidade de espécies particulares. Há
desde recifes de corais e praias arenosas, até manguezais,
marismas, bancos de rodolitos e fanerógamas marinhas,
lagoas, estuários, ilhas oceânicas e pântanos.
O aumento das nossas atividades marítimas também
contribui para esse cenário. No mar, qualquer embarcação
ou estrutura que se movimente pode servir como meio de transporte
para que uma espécie se desloque de um local para o
outro.
A água utilizada
em barcos e navios para manter a estabilidade, o equilíbrio
e a segurança durante a navegação, conhecida
como água de lastro, ao ser preenchida e despejada,
transporta e introduz espécies marinhas de um local
para outro.
Cascos de navios
e plataformas de petróleo, a parte submersa de boias,
o lixo marinho até a abertura de canais de navegação
também são exemplos, já que as espécies
usam essas estruturas e liberam suas larvas por onde passam.
Em 2019, um levantamento
realizado por nós do Laboratório de Ecologia
Marinha Bêntica da Uerj, mostrou que até aquele
ano, 138 espécies marinhas foram consideradas não
nativas (ou exóticas), ou seja, aquelas que ocorrem
fora de sua área de distribuição natural.
A maioria dessas
espécies foi introduzida no sudeste do Brasil e já
encontrada nos 17 estados costeiros do país. Estas
espécies compreendem gastrópodes, crustáceos,
acídias, poliquetas, corais, peixes e até espécies
do plâncton.
Na época
em que o estudo foi publicado na revista Aquatic Invasions,
nós fizemos um alerta. A falta de um banco de dados
nacional de espécies exóticas invasoras marinhas
é uma carência do nosso país no enfrentamento
à bioinvasão.
Qual a situação
atual e o que esperar para os próximos anos?
Passados seis anos, o cenário é outro. O Brasil
atualmente conta com uma plataforma que inclui todas as espécies
exóticas invasoras marinhas do Brasil. A Plataforma
Brasileira de Bioinvasão é atualizada periodicamente
e conta com a contribuição da sociedade, que
pode preencher no próprio site um formulário
indicando a ocorrência de uma espécie não
nativa, que depois será analisado por especialistas
no assunto.
Em contraponto
a esse avanço, o número de espécies introduzidas
aumentou desde 2019. Atualmente, o litoral brasileiro registra
175 espécies exóticas, que chegam ao país
em diferentes embarcações ou estruturas que
se movimentem e possam servir como meio de transporte. Considerando
os dados da Plataforma, esse número sobe para 339,
já que são incluídas as criptogênicas
- quando não se sabe se é nativa ou não
- e as contidas - não nativas, mas restritas a cativeiro
ou cultivo.
Outro número
que chama atenção é o aumento de espécies
invasoras, que são aquelas que causam impactos mensuráveis
no meio ambiente, em atividades socioeconômicas ou na
saúde humana. Em seis anos, a quantidade de invasores
marinhos saltou de 19 para 26.
Esses invasores
compreendem, principalmente, espécies de antozoários,
animais marinhos do grupo das águas-vivas e dos corais.
Diferente das águas-vivas, passam toda a vida fixos
no fundo do mar.
Esse número
acende um outro alerta, o comércio de aquário
como um caminho de transporte de espécies marinhas,
como no caso dos corais moles e pétreos. É o
caso do coral mole azul Latissimia ningalooensis.
Nativa da Austrália, a espécie foi descartada
de um aquário em um costão rochoso de uma praia
de águas calmas e cristalinas no município de
Angra dos Reis, litoral sul do estado do Rio de Janeiro.
Em oito anos, o
coral mole aumentou sua área de distribuição,
dispersou para uma ilha próxima que fica dentro de
uma unidade de conservação e, em alguns pontos,
já é considerada a espécie mais abundante,
ocupando um lugar em que antes viviam espécies nativas
como o coral babão Palythoa caribaeorum e a alga Sargassum,
um alimento importante para tartarugas marinhas.
O fato é
que a introdução de espécies marinhas
no Brasil segue um crescimento exponencial. Nosso país
se tornou um importante doador e receptor de espécies
marinhas, mas ainda carece de mecanismos regulatórios
eficientes.
As leis ainda são
superficiais e as ações de enfrentamento são
caras e esparsas. Ainda que a pesquisa avance e importantes
conquistas tenham sido alcançadas, como a Plataforma
Brasileira de Bioinvasão e a Estratégia Nacional
para Espécies Exóticas Invasoras, o caminho
é longo para alavancar o progresso na área.
Além de
um alerta, chamamos a atenção para que mais
estratégias sejam adotadas no manejo de espécies
exóticas marinhas no Brasil.
Precisamos de um
engajamento dos estados e municípios com o governo
federal para que haja ações integradas, com
maior alcance e eficiência.
É fundamental
também a união de todos os setores da sociedade
e, para isso, a sensibilização de todos sobre
a importância da temática é crucial. Sobretudo,
necessitamos de recursos financeiros, pessoal qualificado
e infraestrutura adequada para implementar medidas de prevenção,
detecção precoce aliada à resposta rápida
e controle de espécies exóticas em áreas
costeiras e marinhas.
Assim, como na
saúde, quando se trata de espécies invasoras,
prevenir é sempre melhor (e muito mais barato) do que
remediar.
*Larissa Marques
Pires-Teixeira é Pesquisadora do Programa de Pós-Doutorado
Nota 10 da Faperj e doutora pelo Programa de Pós-Graduação
em Ecologia e Evolução, UERJ
Fernanda Araujo Casares é pesquisadora de pós-doutorado
do Programa de Pós-Graduação em Ecologia
e Evolução, UERJ.
Joel Christopher
Creed é Bacharel em Botânica com Botânica
Marinha pela University of Wales Bangor, Doutor em Ecologia
pela University of Liverpool, Inglaterra e, atualmente, professor
Titular, UERJ.
Esta pesquisa foi
possível graças ao apoio de agências como
Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à
Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) (FAC
– bolsa PAPD) e a publicação deste artigo
contou com financiamento da Coordenação de Pessoal
de Nível Superior (Capes).
Da UERJ
Fotos: Reprodução/Pixabay
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