Especialistas
alertam para riscos ambientais de intervenções
em praias
Alargamentos
e contenções podem alterar ondas e qualidade
da água
20/03/2026 –
RAFAEL CARDOSO - REPÓRTER DA AGÊNCIA BRASIL –
Obras como engordas artificiais de praia, molhes de pedra
e muros de contenção têm se multiplicado
para conter o avanço do mar no litoral brasileiro.
Porém, especialistas alertam para efeitos colaterais
no meio ambiente e para a necessidade de soluções
baseadas na natureza.
Na semana passada,
o governo do Paraná foi multado pelo Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) em R$ 2,5 milhões pelo uso de sacos plásticos
com areia para conter a erosão no litoral de Matinhos.
Cidades litorâneas
têm recorrido com frequência à engorda
de praia, técnica para ampliar artificialmente a faixa
de areia. Municípios como Balneário Camboriú
e Piçarras, em Santa Catarina, tornaram-se exemplos
desse tipo de intervenção.
Pesquisadores da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) observaram que
essas obras podem alterar a dinâmica natural das ondas
e das correntes marítimas. Em nota técnica,
o grupo de pesquisa indica mudanças nos padrões
de circulação da água, o que pode afetar
a qualidade dela e até aumentar o risco de afogamentos
em áreas recentemente alargadas.
Segundo o professor
Alexander Turra, pesquisador do Instituto Oceanográfico
da Universidade de São Paulo (USP), estruturas emergenciais
costumam resolver um problema localizado, mas acabam provocando
desequilíbrios em outros pontos da costa.
“Essas obras
podem reter areia de um lado, mas intensificar a erosão
do outro. O resultado é um efeito dominó que
exige novas intervenções e pode comprometer
a continuidade da praia”, explica Turra, que é
membro da Rede de Especialistas em Conservação
da Natureza (RECN).
O pesquisador cita
casos no litoral sul da Bahia e no litoral paulista em que
empreendimentos turísticos foram construídos
em áreas naturalmente vulneráveis ao avanço
do mar. A ocupação em muitas dessas regiões
ocorreu com a supressão de restingas e dunas, ecossistemas
que funcionavam como barreiras naturais.
Com o avanço
da erosão, hotéis e outras estruturas passaram
a construir muros de contenção para proteger
suas instalações. O resultado, porém,
é a perda quase total da faixa de areia durante a maré
alta.
Soluções
da natureza
Pesquisadores defendem a ampliação das chamadas
soluções baseadas na natureza para a proteção
costeira. A bióloga Janaína Bumbeer, gerente
de projetos da Fundação Grupo Boticário,
explica que ecossistemas como manguezais, restingas, dunas
e recifes de coral desempenham papel fundamental na proteção
do litoral.
“Esses ambientes
absorvem a energia das ondas, mantêm os sedimentos no
lugar e amortecem o impacto das tempestades”, diz Bumbeer.
“A praia é dinâmica, mas as estruturas
de concreto são estáticas e não se adaptam
aos ciclos naturais”.
Além de
proteger a costa, esses ambientes também oferecem benefícios
econômicos e ambientais. Estudo coordenado pela bióloga
estima que os recifes de coral do Nordeste brasileiro evitam
até R$ 160 bilhões em danos graças à
sua função de proteção costeira.
Manguezais também desempenham papel estratégico:
além de armazenarem grandes quantidades de carbono,
sustentam cerca de 70% das espécies pesqueiras exploradas
comercialmente no Brasil em alguma fase do ciclo de vida.
Restingas e dunas,
por sua vez, conseguem acumular sedimentos e crescer verticalmente,
acompanhando a elevação do nível do mar
quando preservadas.
Para Turra, ampliar o conhecimento público e planejar
melhor a ocupação do litoral são medidas
essenciais diante das mudanças climáticas.
“O litoral
é um bem coletivo. Planejar sua ocupação
com base em evidências científicas é garantir
que ele continue existindo e gerando prosperidade para as
próximas gerações, e não apenas
para interesses particulares de curto prazo”, afirma.
Da Agência
Brasil
Fotos: Reprodução/Pixabay
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