Barulho
de barco e de turistas afeta comunicação de
peixes, diz estudo
Poluição
sonora pode impactar reprodução e alimentação
de espécies
31/08/2026 –
BRUNO DE FREITAS MOURA - REPÓRTER DA AGÊNCIA
BRASIL - Rio de Janeiro - O ruído de motores de embarcações,
como lanchas e motos aquáticas, e de banhistas afeta
a comunicação sonora entre os peixes, o que
pode causar impactos negativos na alimentação,
reprodução e defesa de território de
várias espécies. A poluição sonora
encobre os sons emitidos pelos peixes e representa risco para
a saúde de recifes de corais.
A constatação
faz parte de um artigo de pesquisadores da Universidade Federal
de Pernambuco (UFPE), publicado nesta segunda-feira (20),
na revista científica Neotropical Ichthyology e divulgado
pela Agência Bori, voltada a estudos científicos.
Apesar de a publicação
ser em inglês, o periódico é editado pela
revista oficial da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI).
A ictiologia é o ramo da zoologia dedicado ao estudo
científico dos peixes.
De acordo com um
dos autores do estudo, Túlio Freire Xavier, do Laboratório
de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, a
análise mostrou que “houve uma redução
clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes”.
Segundo ele, a
diminuição foi identificada “justamente”
onde havia maior presença de ruído causado pela
ação humana.
“Isso pode
acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das
embarcações, tornando-se mais difíceis
de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou
alteram sua produção sonora em resposta ao ruído”,
diz.
Ele detalha que
muitos peixes utilizam sons durante comportamentos como reprodução,
defesa de território e alimentação. “Se
essa comunicação for prejudicada, esses comportamentos
também podem ser afetados”, assinala.
Praias turísticas
O estudo monitorou ruídos produzidos pela atividade
humana, como de motores de embarcações, de parapentes
e da própria movimentação de banhistas
no mar. Ao mesmo tempo, os pesquisadores acompanharam os sons
emitidos por peixes nessas áreas.
O trabalho de campo
foi conduzido em duas regiões turísticas no
litoral de Pernambuco: as praias de Carneiros, na Área
de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe; e
Tamandaré, na APA Costa dos Corais.
Essas duas praias
foram selecionadas por serem destinos turísticos populares
com dinâmicas diferentes, o que permitiu comparar os
impactos sonoros.
Carneiros é
um destino popular durante o ano todo, enquanto Tamandaré
apresenta variações sazonais, com pico no verão.
Em cada praia,
os pesquisadores mediram os sons tanto em pontos perto da
costa, mais influenciados pela atividade humana; e pontos
abrigados, onde a estrutura de recifes serve como barreira
para o som.
Forma de medição
Para chegar aos resultados, os pesquisadores instalaram nos
pontos de monitoramento um sistema de gravação
subaquática. Cada sessão de monitoramento teve
dez horas contínuas de gravação diária,
somando 80 horas de dados acústicos.
Além de
captura dos sons, mergulhadores fizeram uma espécie
de censo visual, contando a quantidade e espécie de
peixes. Foram encontradas de 18 a 23 espécies. Em Carneiros,
eles localizaram quase 1,4 mil peixes.
Os registros foram
realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período
de alta temporada, e em abril de 2023.
Sons dos peixes
A pesquisa identificou nove diferentes tipos de sons de peixes.
Três deles deixaram de ser emitidos em locais expostos
à presença de pessoas.
A ictiologia explica
que os peixes produzem grande diversidade de sons, que são
fundamentais para sua comunicação e sobrevivência
nos recifes, que se manifestam por meio de pulsos, às
vezes únicos, às vezes repetidos e formando
sequências. Alguns peixes não produzem sons.
Os sons emitidos
pelos peixes são relacionados a comportamentos específicos
e famílias de peixes. Biologicamente, são essenciais
para localização de parceiros e reprodução,
defesa de território contra invasores, interações
em grupo, e alimentação e detecção
de predadores.
A poluição sonora humana foi relacionada também
à redução na complexidade acústica
– índice que mede a variação de
padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.
Os ruídos
causam um fenômeno chamado “mascaramento acústico”,
quando o som contínuo dos barcos esconde sinais acústicos
dos peixes. Outro impacto é a supressão de comportamento,
quando o ruído pode levar os peixes a reduzir ou cessar
vocalizações.
Consequências
O pesquisador Túlio Freire Xavier destaca que os peixes
da região são fundamentais para a saúde
dos recifes de corais, contribuindo para o equilíbrio
de cadeias alimentares.
“Os peixes recifais desempenham papéis importantes
no controle de algas, na manutenção dos corais
e na produtividade desses ambientes.”
Ele ressalta que
os recifes sustentam atividades importantes para a economia
da região, como o turismo e a pesca artesanal.
“Quando a
poluição sonora interfere no comportamento desses
peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta,
os serviços ecossistêmicos que esses ambientes
oferecem”, diz.
Outras regiões
O especialista da UFPE aponta que, apesar de o experimento
ter sido realizado no litoral pernambucano, o impacto de sons
da atividade humana na vida dos peixes não é
“exclusivo desses locais”.
“Sempre que
houver intenso tráfego de embarcações,
turismo náutico ou outras fontes de ruído subaquático
que coincidam com as frequências utilizadas pelos peixes,
existe potencial para impactos semelhantes”, afirma.
"A intensidade
desses efeitos provavelmente varia de acordo com a quantidade
de embarcações, as características do
recife e as espécies presentes, mas o problema pode
ocorrer em outros importantes recifes brasileiros, como Abrolhos
e Fernando de Noronha”, complementa.
Limites sustentáveis
Túlio Xavier explica que ainda não existem limites
universalmente aceitos para níveis seguros de ruído
em ambientes recifais voltados à proteção
dos peixes.
“Esse é
um campo que ainda precisa avançar bastante. Estudos
como o nosso ajudam justamente a construir esse conhecimento”,
diz.
Ele destaca que
o conhecimento científico gerado é compartilhado
com gestores e comunidades locais, para contribuir com políticas
públicas de manejo das regiões.
O especialista
em biologia marinha da UFPE sustenta que turismo e conservação
não precisam ser incompatíveis, mas que o componente
acústico deve passar a ser considerado no planejamento
das atividades.
“O ruído
subaquático é uma forma de poluição
que normalmente passa despercebida”, avalia.
Ele aponta que medidas “relativamente simples”,
como organizar rotas de embarcações, reduzir
a velocidade em áreas sensíveis e evitar concentração
excessiva de atividades sobre determinados recifes, podem
contribuir para diminuir esse impacto.
“Proteger
a paisagem sonora significa também ajudar a preservar
o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os
benefícios que eles oferecem à sociedade.”
Da Agência
Brasil
Fotos: Reprodução/Pixabay
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