| 24/03/2026
– Pesquisadores do Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares (Ipen) e da USP testaram
com sucesso o uso da técnica de irradiação
por feixe de elétrons para eliminar os resíduos
do antidepressivo fluoxetina no tratamento de água.
O método gera compostos que atacam e degradam
as moléculas do medicamento, eliminando a
toxicidade e reduzindo a contaminação
dos organismos que vivem nas águas, como
os peixes.
A técnica,
que já é empregada experimentalmente
no tratamento de água, é descrita
em artigo revista científica Radiation Physics
and Chemistry. “A fluoxetina é um antidepressivo
amplamente usado no tratamento de transtornos como
depressão e ansiedade. Devido ao seu elevado
consumo, persistência no ambiente e remoção
incompleta em estações convencionais
de tratamento de esgoto, esse fármaco tem
sido frequentemente detectado em águas superficiais”,
afirma ao Jornal da USP o engenheiro bioquímico
Flávio Tominaga, primeiro autor do artigo.
“No
ambiente aquático, a fluoxetina é
classificada como um contaminante emergente e apresenta
relevância ambiental por seu potencial de
causar efeitos adversos em organismos aquáticos,
mesmo em baixas concentrações”,
explica Tominaga. “Estudos indicam que sua
presença pode provocar alterações
comportamentais, além de efeitos fisiológicos
e reprodutivos em peixes e invertebrados aquáticos.
Esses impactos podem comprometer o equilíbrio
ecológico, reforçando a importância
do estudo de tecnologias eficazes para sua remoção
da água.”
De acordo
com o engenheiro, as técnicas convencionais
de tratamento de esgoto são inadequadas para
remover completamente a fluoxetina e outros fármacos,
tanto por não degradarem o composto quanto
por deixarem substâncias tóxicas ativas.
“Por isso, processos avançados, como
a radiação ionizante, fotodegradação
e outros processos oxidativos avançados estão
sendo estudados para melhorar essa remoção”,
destaca. “O método testado na pesquisa
foi a irradiação com feixe de elétrons,
um tipo de radiação ionizante gerada
por um equipamento conhecido como acelerador.”
Redução
da toxicidade
“Quando essa radiação incide
na solução aquosa, ocorre a radiólise
da água, formando radicais altamente reativos,
compostos que atacam e degradam as moléculas
dos fármacos”, descreve. Na radiólise,
acontece a quebra das ligações químicas
que formam a água. “Essa técnica
se insere no contexto de processos oxidativos avançados
(POAs) e é considerada promissora para remover
contaminantes orgânicos persistentes.”
Os resultados
dos testes demonstraram que a irradiação
por feixe de elétrons foi eficiente na degradação
da fluoxetina e do surfactante (substância
que permite a ação superficial do
fármaco), tanto individualmente quanto em
mistura. “Também houve redução
significativa da toxicidade da solução
tratada, evidenciada por ensaios ecotoxicológicos”,
ressalta o pesquisador. “Apesar da degradação
dos compostos, a mineralização completa
foi limitada, indicando a formação
de subprodutos, embora com menor toxicidade que
a mistura original.”
“A irradiação por feixe de elétrons
apresenta elevado potencial para aplicação
em estações de tratamento de efluentes
e de esgoto”, observa Tominaga. “No
Brasil, o Ipen, vinculado à Comissão
Nacional de Energia Nuclear (CNEM), dispõe
de uma unidade móvel, que contém um
acelerador de elétrons, o que permite a avaliação
do tratamento em estações de tratamento
de efluentes, com volumes consideráveis e
operação em fluxo contínuo.”
O pesquisador
salienta que a tecnologia já vem sendo estudada
e usada em outros países, como a Coreia do
Sul, China, Japão e alguns países
da Europa, e principalmente no tratamento de efluentes
industriais, lodos de esgoto e na remoção
de micropoluentes orgânicos persistentes.
“Essas experiências internacionais demonstram
que a tecnologia é tecnicamente viável,
segura e escalonável, reforçando seu
potencial de aplicação em sistemas
de tratamento de efluentes”, conclui. Texto:
Júlio Bernardes.
O trabalho
foi desenvolvido por pesquisadores vinculados ao
Ipen, coordenados por Sueli Ivone Borrely, com a
colaboração de Antonio Carlos Silva
Costa Teixeira, do Centro de Engenharia de Sistemas
Químicos (Cesq) da Escola Politécnica
(Poli) da USP, além dos pesquisadores Flavio
Kiyoshi Tominaga, Roberta Frinhani Nunes e Vanessa
Silva Granadeiro Garcia. O artigo sobre a pesquisa
pode ser conferido no link: Electron beam application
to fluoxetine and surfactant mixture degradation,
with persulfate, and toxicity approach. *Estagiário
sob orientação de Simone Gomes.
Do Jornal
da USP
Fotos: Reprodução/Pixabay
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