Carbono
azul ganha espaço na agenda climática dos
oceanos
Ecossistemas
costeiros são promissores para frear mudanças
climáticas
15/06/2026 – Rio de
Janeiro - RAFAEL CARDOSO - REPÓRTER DA AGÊNCIA
BRASIL - Na corrida para frear as emissões causadoras
do aquecimento global, ambientalistas chamam a atenção
para um aliado pouco lembrado: o "carbono azul".
No Dia Mundial dos Oceanos, celebrado nesta segunda-feira
(8), especialistas destacam o papel dos ecossistemas costeiros
no enfrentamento das mudanças climáticas.
O conceito de carbono azul
se refere ao dióxido de carbono (CO2) capturado e
armazenado por ambientes marinhos, como manguezais, marismas
(pântanos de água salgada) e pradarias. Esses
ambientes funcionam como sumidouros do gás carbônico,
ao retirá-lo da atmosfera, reduzindo os impactos
do aquecimento global.
“O oceano absorve
cerca de 30% das emissões globais de CO2 e produz
mais da metade do oxigênio que respiramos, de acordo
com dados da SOS Oceano”, diz Natali Piccolo, diretora
do Programa Costeiro Marinho da Conservação
Internacional (CI-Brasil).
“A Amazônia
é comumente chamada de ‘pulmão do mundo’,
mas o oceano cumpre o equivalente a esse papel. O que não
descarta, claro, a importância da floresta tropical
na regulação do clima”, completa.
Além disso, essas
vegetações costeiras fornecem abrigo para
a biodiversidade, sustentam a pesca artesanal e ajudam a
proteger comunidades costeiras contra erosão, ressacas
e eventos climáticos extremos.
Reprodução/Fernando
Frazão/Agencia Brasil
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Costa brasileira
O Brasil abriga o maior sistema contínuo de manguezais
do mundo, na costa da Amazônia, condição
que coloca o país em posição estratégica
para liderar soluções baseadas na natureza
voltadas ao enfrentamento da crise climática.
Porém, para a analista
de conservação do WWF-Brasil, Marina Corrêa,
o oceano recebe menos atenção do que outros
biomas brasileiros.
“O mar ainda é,
em muitos aspectos, o sistema invisível da conservação
brasileira. Historicamente, o oceano foi tratado como uma
imensidão azul vazia, quando na verdade é
um território vivo, cheio de biodiversidade, cultura,
trabalho e modos de vida”, diz a analista.
Ela lembra que o Sistema
Marinho-Costeiro brasileiro ocupa cerca de 5,7 milhões
de quilômetros quadrados, equivalente a aproximadamente
40% do território nacional, e que mais da metade
da população vive nesse ecossistema. Ainda
assim, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica concentram
a maior parte da atenção pública, política
e financeira voltada à conservação.
Povos tradicionais
O crescimento do interesse por projetos de carbono azul
também tem levantado discussões sobre direitos
territoriais e participação das comunidades
tradicionais. Para a analista da WWF-Brasil, resultados
duradouros dependem do respeito aos direitos territoriais
e repartição justa dos benefícios gerados.
“O sucesso dessas
iniciativas não deve ser medido apenas pela quantidade
de carbono armazenado, mas também pela capacidade
de fortalecer territórios, conservar a biodiversidade
e melhorar a qualidade de vida das pessoas que historicamente
cuidam desses ecossistemas”, diz Marina Corrêa.
Quando degradados, esses
ambientes deixam de oferecer serviços essenciais,
como a manutenção dos estoques pesqueiros,
a proteção natural da costa e a conservação
da biodiversidade.
A destruição
desses ecossistemas também pode liberar para a atmosfera
o carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos,
agravando o aquecimento global.
Além do carbono
Para organizações ambientais, proteger os
oceanos significa também proteger empregos, segurança
alimentar, culturas tradicionais e formas de subsistência
construídas ao longo de gerações.
“Globalmente, a maior
renda do oceano é gerada pela pesca, que sustenta
100 milhões de empregos e produz 80 milhões
de toneladas de pescado marinho, além de 30 milhões
de toneladas da aquicultura marinha, o que sustenta a segurança
alimentar de milhares de pessoas, por fornecer proteína
de alta qualidade”, diz Natali Piccolo.
No Brasil, cerca de 1,7
milhão de pescadores artesanais dependem diretamente
da saúde dos ecossistemas marinhos, segundo o Registro
Geral da Atividade Pesqueira, do Ministério da Pesca
e Aquicultura.
Nesse sentido, o trabalho
conjunto de instituições públicas com
organizações da sociedade civil é essencial
para garantir um futuro mais promissor para os oceanos.
“Nossa atuação
é sistêmica, para preencher as lacunas da proteção,
manejo e restauração dos ecossistemas marinhos
(manguezais, recifes de corais, restingas), enquanto ajudamos
os povos do mar a prosperarem, bem como a sociedade brasileira
a desenvolver o conhecimento e a experiência do oceano”,
diz Natali Piccolo, da CI-Brasil.
Marina Corrêa, da
WWF Brasil, explica que a estratégia da organização
para os próximos anos está organizada em quatro
grandes frentes: fortalecimento das áreas marinhas
protegidas, conservação e restauração
de recifes de coral (ecossistema mais vulnerável
às mudanças climáticas), promoção
de uma transição energética justa e
incidência política para fortalecer a governança
dos oceanos no Brasil e internacionalmente.
Da Agência Brasil
Fotos: Reprodução/Fernando Frazão/Agencia
Brasil