12/01/2026
– Rafael Cardoso - Repórter da Agência Brasil
- Pesquisa divulgada mostra que a baixa reciclabilidade de embalagens
plásticas gera perdas econômicas e sobrecarga de trabalho
para cooperativas e associações de catadores no estado
do Rio de Janeiro.
O estudo, realizado entre julho e
dezembro deste ano, analisou o impacto direto dos plásticos
sem valor de mercado sobre a rotina e a renda desses trabalhadores.
Foram analisadas 20 organizações de catadores, sendo
dez da capital fluminense e dez das regiões sul, centro-sul
e Costa Verde.
Segundo os pesquisadores, quase 16
horas por mês, em média, são perdidas na triagem
de plásticos que não geram retorno financeiro. Isso
equivale a cerca de 9,4% do tempo mensal de trabalho, aproximadamente
2 dias por mês. Os catadores trabalham, em média, 7
horas e meia por dia e 22 dias por mês.
A maioria dos catadores identificados
na pesquisa é mulher (68,56%). Em relação à
divisão por raça/cor, a maioria das pessoas é
parda (58,75%); seguida por preta (30,82%) e branca (9,43%).
A pesquisa foi feita pelo Instituto
de Direito Coletivo (IDC) e pela Universidade Federal Fluminense
(UFF), por meio da Incubadora Tecnológica de Empreendimentos
de Economia Solidária do Médio Paraíba (InTECSOL).
Os recursos financeiros foram do edital
Fondos para implementación de proyectos en América
Latina y el Caribe, promovido pela organização internacional
Gaia (Aliança Global por Alternativas à Incineração).
Reprodução/Fernando
Frazão/Abr
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Catadores
Os pesquisadores também calcularam a perda financeira das
cooperativas em razão da não comercialização
de todos os tipos de rejeitos plásticos. Muitos desses materiais
poderiam ser reciclados, mas acabam indo para aterros por falta
de mercado, logística ou valorização econômica.
A estimativa é de que as organizações
incluídas no cálculo deixam de arrecadar mensalmente
valores que variam entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72 apenas com esses
rejeitos plásticos que poderiam ser comercializados.
A presidente do IDC, Tatiana Bastos,
chama atenção para o papel central dos catadores no
sistema de reciclagem brasileiro e para a precariedade da remuneração
desses trabalhadores.
“Os catadores são uma
categoria profissional essencial para o meio ambiente. O que acontece
em termos de coleta seletiva no país passa pela mão
do catador. A sociedade deve muito a esse serviço”,
afirma Tatiana.
“Para fortalecer a categoria,
eles precisam receber pelo serviço ambiental prestado e não
só pelo peso do resíduo. O peso da tonelada do papel
e do vidro, por exemplo, é muito baixo. E o que é
o serviço ambiental? O pet reciclado não está
indo para o rio. O papelão que está sendo aproveitado
não está derrubando mais uma árvore”,
explica.
Recicláveis e rejeitos
Do total de resíduos analisados na pesquisa, a maioria era
composta por plásticos (28,19%) e papel (26,16%). Na sequência,
veio a categoria “outros” (21,23%), que inclui eletrônicos,
vidro e tetra pak (tipo de embalagem multicamada, que mistura papel,
plástico e alumínio). Rejeitos (19,14%) e metal (5,28%)
completam a lista.
O foco da pesquisa é a categoria
rejeitos. Segundo a Lei 12.305/2010, que estabelece a Política
Nacional de Resíduos Sólidos, rejeito é o sólido
que, “esgotadas todas as possibilidades de tratamento e recuperação
por processos tecnológicos disponíveis e economicamente
viáveis, não apresentem outra possibilidade que não
a disposição final ambientalmente adequada”.
Do total de rejeitos, 44,83% eram
compostos por plásticos, 40% por orgânicos, 14,36%
se enquadravam na categoria “outros” (lacres de alumínio,
papel misto de batata frita, bandeja de ovo, borracha, vidro, etc.)
e 0,80% eram eletrônicos (fios, cabos, pilhas e baterias).
Os pesquisadores auditaram 533 embalagens
plásticas classificadas como rejeito. A maior parte (82%)
é oriunda da indústria alimentícia. Também
aparecem, em proporções menores, embalagens de higiene,
alimentação animal, medicamentos e cosméticos.
Os dados mostram que as embalagens
metalizadas do tipo Bopp representam 36,59% dos rejeitos plásticos
analisados. Esse tipo de material é um filme plástico
fino e resistente, muito usado para snacks, biscoitos, doces e picolés.
Um dado que chama atenção
é a ausência do código de identificação
de reciclagem em 33,40% das embalagens, classificadas como “não
especificadas”.
Indústria
Entre as 533 embalagens avaliadas, foram identificados 199 grupos
empresariais, sendo que seis concentram quase 30% de todas as embalagens
rejeitadas: Mondelez International, M. Dias Branco, Pepsico, Nestlé,
Bimbo e Capricche. Em contrapartida, 122 grupos apareceram apenas
uma única vez na amostra.
O estudo reforça a necessidade
de responsabilização da indústria, especialmente
do setor alimentício, pela adoção de embalagens
mais ecoeficientes.
Pesquisadores apontam a urgência
de investimentos em design circular, substituição
de materiais de baixa reciclabilidade e fortalecimento da logística
reversa, como forma de reduzir danos ambientais e garantir renda
digna aos catadores.
“Será que essas empresas
não poderiam usar um plástico com durabilidade maior,
que pudesse ser descartado e reciclado? Ou outro tipo de material,
como vidro e papelão? As empresas precisam repensar o que
estão colocando no mercado e o impacto que causam no meio
ambiente”, defende Tatiana.
A presidente do IDC também
critica a distância entre a legislação ambiental
existente e a aplicação prática no país.
“O poder público tem
instrumentos normativos para atuar, seja a nível federal,
estadual ou municipal. É preciso fiscalizar melhor o mercado,
cobrar das empresas que colocam essas embalagens em circulação
e cobrar dos municípios que também são os responsáveis
pela coleta seletiva”, disse Tatiana.
Da Agência Brasil
Foto: Reprodução/Fernando Frazão/Agência
Brasil
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