15/01/2026
– André Julião – Agência FAPESP
– Nem as regiões mais remotas do globo estão
livres da poluição por plásticos, incluindo
a Ilha da Trindade, ponto mais ao leste do Brasil. Em um estudo
publicado no Marine Pollution Bulletin, pesquisadores da Universidade
Estadual Paulista (Unesp) detectaram as chamadas rochas plásticas
e observaram ainda que os ninhos da tartaruga-verde (Chelonia mydas)
são especialmente propícios para o plástico
se acumular e ser soterrado, o que aumenta as chances de permanecer
no registro geológico e ainda comprometer a conservação
da espécie.
As rochas plásticas são
aglomerados do material e de sedimentos naturais, resultado principalmente
da ação humana, como fogueiras, sobre o lixo nas praias.
No Brasil, as rochas plásticas foram detectadas pela primeira
vez no Parcel das Tartarugas, uma das praias da Ilha da Trindade,
1.100 quilômetros distante da costa do Espírito Santo
(leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/rochas-de-plastico/).
Após monitorarem a poluição
plástica na ilha por cinco anos, os autores mostraram que
as rochas de plástico encontradas em 2019 estão erodindo,
já tendo perdido cerca de 40% de área e espalhado
fragmentos para outras seis praias da ilha. A maioria do macro e
do microplástico se acumula justamente nas depressões
em que as tartarugas enterram os ovos anualmente.
“Um dos requisitos para o Antropoceno
ser considerado uma nova época geológica, algo ainda
em debate, é justamente a existência de materiais produzidos
por humanos soterrados no sedimento. Como estavam até 10
centímetros abaixo da superfície nos ninhos, este
é um potencial ponto de acúmulo para os próximos
milhões de anos”, explica Fernanda Avelar Santos, primeira
autora do estudo, realizado durante pós-doutorado com bolsa
da FAPESP na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp,
em Presidente Prudente.
Reprodução/Fernanda
Avelar Santos/Agência Fapesp
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O trabalho integra projeto apoiado
pela Fundação.
Os pesquisadores analisaram os plásticos
encontrados na ilha com equipamento de espectroscopia, que identifica
os polímeros e os aditivos presentes nas amostras. “Os
testes químicos permitiram identificar que se tratava de
cordas de polietileno de alta densidade [PEAD] e corantes com cobre,
metal que dá a coloração verde. Isso acende
um alerta em relação às atividades marítimas,
como pesca e navegação, responsáveis por essa
fonte de poluição marinha, a maior no mundo inteiro”,
afirma Santos, atualmente realizando estágio na Western University,
no Canadá, com bolsa da FAPESP.
Os detritos foram classificados ainda
quanto ao formato, o que indica mecanismos de transporte, como tempo
e distância em que se moveram. Além disso, formatos
mais arredondados são associados à área próxima
do mar, uma vez que o impacto das ondas retrabalha o material constantemente.
Formatos mais angulosos, por sua vez,
são associados ao soterramento nos ninhos de tartarugas –
o material permanece mais ou menos estático no sedimento
e sofre menos com a ação do mar. “Isso aponta
que o plástico está no ciclo geológico da praia,
com características muito parecidas aos grãos de areia
e fragmentos de rocha”, explica a pesquisadora.
Gerenciamento de resíduos
A Ilha da Trindade é uma formação
vulcânica, rica em biodiversidade e sem uma população
humana fixa, apenas uma equipe rotativa de 30 a 40 membros da Marinha.
Faz parte do Monumento Nacional das Ilhas de Trindade e Martim Vaz
e do Monte Columbia, categoria de unidade de conservação
integral.
A presença de lixo plástico,
inclusive no formato de rochas plásticas, é bastante
sintomática desse tipo de poluição, que não
poupa nem pontos isolados do globo, em tese distantes de atividades
humanas.
“Fora o impacto visível
no ambiente, podemos presumir que há ingestão desse
plástico pela fauna, não apenas as tartarugas, mas
peixes, aves e caranguejos. É uma área única
no mundo e este é um aviso importante”, alerta a pesquisadora
(leia mais em: agencia.fapesp.br/50565).
Para os pesquisadores, os resultados
reforçam a necessidade de políticas públicas
para gerenciar os resíduos plásticos, especialmente
de cordas marítimas, além de ações coordenadas
para a limpeza de praias, com prioridade para as que abrigam vida
selvagem diretamente afetada pela poluição, como o
Parcel das Tartarugas.
O artigo Anthropogenic stones on a
remote oceanic island: formation, transport, and burial in a sea
turtle nesting beach pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0025326X25015772.
Da Agência Fapesp/André
Julião
Fotos: Reprodução/Agência Fapesp/Fernanda Avelar
Santos
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