12/02/2026
– Um estudo inédito mediu em tempo real a velocidade
com que microplásticos atravessam o trato digestivo de uma
espécie-chave de zooplâncton, estimando quanto plástico
esses organismos transportam e afundam diariamente no oceano. A
pesquisa destaca o papel do zooplâncton como importante via
de dispersão de microplásticos nos ecossistemas marinhos,
um dado crucial diante do enorme volume dessas partículas
acumuladas nos oceanos.
Os copépodes são o grupo
mais abundante de zooplâncton nos oceanos e estão presentes
desde a superfície até grandes profundidades. Devido
à sua enorme quantidade, mesmo a ingestão de microplásticos
por indivíduos pode gerar impactos significativos em escala
ecossistêmica.
O estudo liderado por Valentina Fagiano
e pesquisadores do PML mostra que copépodes podem transportar
diariamente centenas de partículas de microplástico
por metro cúbico de água ao longo da coluna d’água.
Publicada no Journal of Hazardous Materials, a pesquisa oferece
uma das análises mais claras sobre como o zooplâncton
redistribui microplásticos nos oceanos.
Os copépodes são essenciais
para a cadeia alimentar marinha e para a bomba biológica
de carbono, servindo de alimento a diversos animais e ajudando a
transportar carbono para águas profundas. Recentemente, também
passaram a ser reconhecidos como vetores de microplásticos,
mas faltavam dados precisos sobre a quantidade de plástico
que cada indivíduo processa e a velocidade desse transporte.
No estudo, copépodes (Calanus
helgolandicus) foram coletados no Atlântico Norte e analisados
em laboratório, onde foram expostos a diferentes tipos de
microplásticos, como contas e fibras de poliamida e poliestireno.
Os testes avaliaram como o tipo de plástico e a disponibilidade
de alimento influenciam a velocidade com que essas partículas
passam pelo intestino dos animais.
Com visualização em
tempo real, os cientistas acompanharam a ingestão e eliminação
de microplásticos por copépodes, medindo o tempo de
trânsito intestinal e a frequência de ingestão.
Os resultados mostraram que as partículas permanecem cerca
de 40 minutos no intestino, independentemente do formato do plástico
ou da disponibilidade de alimento.
Combinando os dados laboratoriais
com a densidade de copépodes no oeste do Canal da Mancha,
os pesquisadores estimaram que esses animais transportam cerca de
271 partículas de microplástico por metro cúbico
de água por dia. Segundo o Dr. Matthew Cole, os microplásticos
ingeridos são incorporados às fezes dos copépodes,
que afundam devido à sua flutuabilidade negativa, levando
as partículas para camadas mais profundas da coluna d’água.
A Dra. Rachel Coppock ressalta que a poluição por
microplásticos não se limita à superfície
do oceano: o zooplâncton, especialmente os copépodes,
transporta constantemente essas partículas pela coluna d’água
e para a cadeia alimentar, processando-os diariamente.
A professora Penelope Lindeque aponta
que, como os copépodes são alimento essencial para
larvas de peixes e pequenos peixes pelágicos, a ingestão
contínua de microplásticos pode expor seus predadores
a esses poluentes de forma crônica, afetando saúde,
comportamento e balanço energético ao longo do tempo.
Ela compara o zooplâncton a um sistema de “encanamento”
ou “entrega” de microplásticos, afundando partículas
na coluna d’água e transferindo-as para níveis
superiores da cadeia alimentar.
Muitos modelos anteriores de transporte
de microplásticos careciam de parâmetros específicos
para o zooplâncton. A nova abordagem, baseada em tempos de
trânsito intestinal, frequência de ingestão e
abundância realista de copépodes, permite incorporar
o comportamento desses animais nos modelos, reduzir incertezas sobre
a acumulação de plásticos e melhorar avaliações
de risco em áreas ecologicamente ou economicamente importantes.
Isso auxilia cientistas e formuladores de políticas a identificar
pontos críticos de exposição e possíveis
intervenções.
Quantificar o fluxo de microplásticos
nos copépodes permite conectar o que ocorre em um único
animal à redistribuição desses plásticos
em ecossistemas inteiros. Os copépodes ingerem microplásticos
continuamente, processando-os e depositando-os no fundo do mar por
meio das fezes, funcionando como "mini bombas biológicas".
Ter dados realistas sobre ingestão
e trânsito intestinal é essencial para modelos computacionais,
pois possibilita prever melhor onde os microplásticos se
acumulam, quais espécies são mais expostas e como
a poluição interage com outras pressões nos
ecossistemas marinhos.
Saiba mais: Valentina Fagiano et al,
Visualização em tempo real revela fluxo de microplásticos
mediado por copépodes, Journal of Hazardous Materials (2025).
DOI: 10.1016/j.jhazmat.2025.140551
Da Redação, com
informações de agências internacionais
Matéria elaborada com auxílio de inteligência
artificial
Fotos: Reprodução/Pixabay
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