25/03/2026
– Por André Julião, da Agência FAPESP
- Estudo desenvolvido no Instituto de Ciência e Tecnologia
da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp), em São José
dos Campos, mostra que a moringa ou acácia-branca (Moringa
oleifera) tem potencial para a remoção de microplásticos
da água.
O trabalho foi publicado
na revista ACS Omega, da Sociedade Americana de Química.Originária
da Índia, a moringa é bastante adaptada a diferentes
países tropicais e é usada para diversos fins, como
a alimentação, pelo consumo de suas folhas e sementes
com valor nutricional. Há alguns anos, as sementes têm
sido estudadas por seu potencial no tratamento de água.
“Mostramos que
o extrato salino das sementes tem uma performance parecida ao do
sulfato de alumínio, usado em estações de tratamento
para coagular a água com microplásticos. Em águas
mais alcalinas, ele teve um desempenho até melhor do que
o produto químico”, conta Gabrielle Batista, primeira
autora do estudo, realizado como parte de seu mestrado no Programa
de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental
(PPGECA) da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) da Unesp.
O trabalho é coordenado
por Adriano Gonçalves dos Reis, professor do ICT-Unesp e
do PPGECA da FEB-Unesp, que também coordena o projeto “Filtração
direta e em linha para remoção de microplásticos
da água de abastecimento”, apoiado pela FAPESP.
“A
única desvantagem encontrada até agora em relação
ao sulfato de alumínio foi o aumento de matéria orgânica
dissolvida, cuja remoção poderia encarecer o processo.
No entanto, em pequenas escalas como propriedades rurais e pequenas
comunidades, o método poderia ser usado com baixo custo e
eficiência”, diz Reis.
Reprodução/Adriano Reis/ICT-Unesp
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O estudo teve como foco
o tratamento de água via filtração em linha,
em que a água é coagulada, desestabilizando as partículas,
e segue para um filtro de areia. Esse tipo de tratamento é
indicado para águas com baixa turbidez, mais claras, que
não demandam tantos processos antes da filtração.
A coagulação
é essencial porque poluentes como o microplástico,
que possuem carga elétrica negativa em sua superfície,
se repelem, assim como repelem a areia contida nos filtros de tratamento
de água. Coagulantes como o extrato salino de moringa, que
pode ser feito mesmo em casa, e o sulfato de alumínio neutralizam
essa carga, fazendo com que os poluentes se unam e possam ser filtrados.
Em estudo anterior, o
grupo mostrou a eficácia da semente de moringa para coagulação
num ciclo completo de tratamento de água, que envolve ainda
floculação, sedimentação e filtração.
O trabalho teve como primeiro autor Luiz Gustavo Rodrigues Godoy,
que realizou mestrado com bolsa da FAPESP na FEB-Unesp.
Experimentos
Para testar a eficácia do método de tratamento de
água, os pesquisadores utilizaram água da torneira,
que contaminaram experimentalmente com policloreto de vinila, mais
conhecido pela sigla PVC.
Microplásticos
dessa fonte específica foram escolhidos por estarem entre
os mais perigosos para a saúde humana, dado o documentado
potencial mutagênico e cancerígeno do PVC, além
da sua prevalência tanto na superfície de corpos d’água
quanto na água tratada por processos tradicionais.
O PVC foi envelhecido
artificialmente utilizando irradiação de raios ultravioleta,
que mimetiza a ação de processos naturais e reproduz
as propriedades dos microplásticos envelhecidos naturalmente.
A água contaminada
por microplásticos passou pelo processo de coagulação
e filtração no chamado Jar Test, equipamento que reproduz
em pequena escala os processos de tratamento de água. Os
resultados foram comparados aos dos mesmos testes realizados em
água com sulfato de alumínio, composto usado nos tratamentos
tradicionais.
A contagem das partículas
de microplásticos, antes e depois do tratamento, foi realizada
utilizando microscopia eletrônica de varredura (MEV). O tamanho
dos flocos formados pelos diferentes tratamentos foi medido usando
uma câmera de alta velocidade e um feixe de laser, sem encontrar
diferenças significativas na remoção das partículas.
O grupo agora testa o
extrato de semente de moringa usando água diretamente coletada
no rio Paraíba do Sul, que abastece São José
dos Campos. Nos experimentos realizados até agora, o produto
tem se mostrado bastante eficiente no tratamento da água
natural.
“Há um escrutínio
regulatório cada vez maior e uma preocupação
com a saúde sobre o uso de coagulantes baseados em alumínio
e ferro, pelo fato de não serem biodegradáveis, além
de deixarem toxicidade residual e apresentarem risco de doenças.
Por isso, tem-se intensificado a busca por alternativas sustentáveis”,
encerra Reis.
O artigo Removal of microplastics
from drinking water by Moringa oleifera seed: comparative performance
with alum in direct and in-line filtration systems pode ser lido
em https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c11569
Da
FAPESP
Fotos: Reprodução/Adriano Reis/ICT-Unesp
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