28/05/2026
– A oceanógrafa Fernanda Possatto apresenta uma bancada
repleta de lixo plástico encontrado em 14 praias do litoral
do Paraná. Segundo ela, esses são os resíduos
fáceis de se ver. No entanto, a pesquisa dela destaca outra
preocupação presente no mar, muito mais difíceis
de se visualizar: os microplásticos.
Um levantamento conduzido pela pesquisadora
aponta que 93,6% de uma amostra de peixes coletados em feiras e
mercados do litoral paranaense apresentam microplásticos
no trato digestivo.
Dos 47 indivíduos examinados,
44 apresentaram partículas. A maior contaminação
ocorreu em peixes demersais, que vivem em contato direto com o fundo
do mar. Os microplásticos são fragmentos menores que
5 milímetros (mm), vestígios de produtos feitos com
plástico e que foram consumidos pelos peixes examinados.
“Isso não significa que
os peixes não podem ser ingeridos, porque a gente não
está falando de saúde alimentar ainda, mas isso já
é um indício de que a gente precisa estudar melhor
esses impactos”, disse ela a jornalistas na sede da Associação
Mar Brasil, uma organização sem fins lucrativos.
“A gente não está
falando ainda de risco para saúde humana porque hoje a gente
não come o trato, não come o estômago, a gente
come o músculo”, tranquiliza.
Projeto de recuperação
marinha
A sede da Mar Brasil fica na cidade de Pontal do Paraná,
em uma praia de frente para a turística Ilha do Mel. A organização
desenvolve o Programa de Recuperação da Biodiversidade
Marinha (Rebimar), iniciativa patrocinada pela Petrobras.
Perto dali, há ambientes com
características diversas, como a Ilha da Cotinga, uma terra
indígena; áreas contínuas de manguezais; e
o Porto de Paranaguá, que atrai constantemente frotas de
navios.
Reprodução/Fernando
Frazão/Agência Brasil
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A pesquisadora Fernanda defende a
necessidade de novos estudos para identificar o efeito do microplástico
nos peixes.
“Quanto dos componentes tóxicos
que existem desse microplástico presente no estômago
pode ser absorvido pelos tecidos musculares das espécies
de peixes?”, indaga.
Ela cita que outros estudos apontaram
que os fragmentos podem liberar substâncias tóxicas
que resultam na alteração da fecundidade dos animais
e surgimento de tumores.
“Tudo isso ainda está
sendo analisado e estudado.”
Formação e destino
Os microplásticos são fragmentos do material maior,
o plástico, que sob efeito do tempo e da irradiação
solar, se quebram em micropartículas e acabam ficando na
água, no solo e no ar, chegando à cadeia alimentar.
Essas partículas podem surgir
de lixo no mar, como embalagens e garrafas, pneus, tecidos e revestimentos
com tinta. As tintas, aliás, são fontes de elementos
químicos presentes nesses fragmentos.
Uma pesquisa brasileira chegou a encontrar
microplásticos em placentas e cordões umbilicais.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que
o mundo enfrenta problemas relacionados à presença
de microplástico e defende mais pesquisas sobre o efeito
dos fragmentos na saúde humana.
Presença em aves
Os estudos do Rebimar identificaram a presença do microplástico
também em aves que têm contato com o mar. Foram analisadas
gaivotas e corujas-buraqueiras. O levantamento foi feito por meio
de análise de material regurgitado (expelido do estômago
ou do papo) pelas aves vivas.
Em 69% delas, foram notados fragmentos.
“Se você nota que a cada dez indivíduos, sete
têm microplástico, é muito alto”, pontua
a oceanógrafa.
Fernanda Possatto, que trabalha com
pesquisas ligadas ao lixo no mar, contextualiza que o microplástico
é encontrado tanto em áreas com bastante presença
humana, como nos arredores do Porto de Paranaguá, com em
áreas preservadas ambientalmente.
Para ela, é um indicativo de
que “fronteira geográfica não existe para a
questão do plástico”. Ela explica que os fragmentos
são transportados por correntes, ventos e marés.
“Tudo isso influencia na presença. Faz com que seja
um problema sistêmico.”
Utilidade das informações
A oceanógrafa acrescenta que a pesquisa pode fornecer informações
para que autoridades públicas tracem limites para a presença
de microplástico em humanos.
“A gente não tem hoje
um índice que nos diz se 1 microplástico por metro
cúbico de água é aceitável”, exemplifica.
“Estamos em um processo de construção desses
índices.”
Para a pesquisadora do Rebimar, caminhos
para mitigar o problema do microplástico no meio ambiente
passam por ações da indústria e consumo consciente
do plástico.
“Não tem uma solução
única. A gente tem que pensar em vários leques de
atuação, desde a sensibilização com
a educação ambiental até a fonte mesmo que
é a produção do plástico.”
Lixo e tartarugas
Outra ponta do projeto ambiental é o monitoramento de tartarugas-verdes,
uma das sete espécies desses animais marinhos do mundo e
uma das cinco registradas no Brasil.
Pelo menos três vezes ao ano,
pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) capturam
e analisam a saúde das tartarugas. Desde 2014, foram feitas
435 capturas, sendo 313 indivíduos, ou seja, cerca de 120
foram observadas mais de uma vez.
A bióloga Camila Domit, coordenadora
do Laboratório de Ecologia e Conservação da
UFPR, revela que 80% das tartarugas encontradas mortas no litoral
paranaense tinham lixo no trato digestivo.
“É assustador”,
enfatiza ela. “Dependendo da quantidade de lixo, pode levar
o animal a óbito”, esclarece.
Camila acrescenta que, além
da quantidade, o tipo de resíduo é uma complicação.
“A gente encontra uma série de plásticos rígidos
que causam rompimento, lesões mais graves no trato digestivo
desses animais”, descreve.
Os estudos da UFPR e do Rebimar mostram
que cerca de mil tartarugas são encontradas mortas anualmente
nas praias monitoradas. De cada dez, sete são vítimas
de interação com a pesca.
A bióloga relaciona o lixo
no mar com a vulnerabilidade das tartarugas.
“O animal come o lixo, fica debilitado, fica mais flutuando
porque não consegue defecar, não consegue se alimentar
bem e, então, a interação com a pesca acontece”,
detalha.
O projeto utiliza tecnologias como rastreamento por satélite
e acústico para acompanhar trajetos e costumes dos animais
marinhos.
De acordo com Camila Domit, as evidências
científicas do Rebimar fornecem subsídios para que
autoridades tomem decisões que favorecem a preservação
dos animais.
Ela lembra que o conhecimento científico dessas pesquisas
contribuiu para que a Ilha das Cobras, na Baía do Paranaguá,
fosse transformada em parque estadual para conservação
da espécie.
“Quando você tem dados
científicos, o processo da gestão é muito melhor”,
conclui.
Projeto contínuo
O Rebimar faz parte do Programa Socioambiental da Petrobras desde
2009 e conta com aporte de R$ 6 milhões para um período
de quatro anos, que pode ser habilitado para novo ciclo de investimento.
A gerente setorial de integração
de projetos ambientais da estatal, Michele Cardoso, destaca o caráter
de continuidade do apoio.
“É importante ter nessa
carteira de projetos parcerias de longo prazo que dão essa
robustez e solidificam os compromissos do programa”, diz.
Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil
(Repórter e fotógrafo viajaram a convite da Petrobras.)
Da Agência Brasil/Bruno de Freitas
Moura
Fotos: Reprodução/Fernando Frazão/Agência
Brasil
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